
Don Vito, qual Maria Filomena Mónica, foi ao comício de desagravo de José Sócrates no Porto e gostou do que viu!
O PS não é (nunca foi) um partido de massas, é um partido essencialmente de poder - um partido de cartel, como hoje se diz em sociologia política. Por essa razão é mais fácil ao PCP meter dez mil pessoas na casa do povo do Ciborro, do que ao PS levar quinhentas pessoas ao pavilhão atlântico. Só por isto, a manifestação de hoje, como resposta à manifestação dos professores da semana passada, era um tremendo erro. Uma luta desigual, com um resultado final à partida conhecido.
Todavia, Don Vito sabe, de tanto ouvir dizer, que à semelhança do Compromisso do Luxemburgo que na União Europeia alivia todos os bloqueios institucionais, há no PS também uma velha formula parecida e vezes repetida, “quanto mais a luta aquece, mais força têm o PS”. E foi, justamente, isso que se viu hoje no Porto.
Com um pavilhão a pinha, num calor sufocante e com milhares de pessoas cá fora que não conseguíram entrar, o povo socialista engalanou-se para as anunciadas comemorações dos três anos de governo e foram muitos milhares os que disseram presente à chamada. A resposta (pois é disso que se trata) destes dez mil foi, sobretudo, uma resposta de revolta e um escape de liberdade cívica que, ao contrário do que muito querem fazer crer, também há nos partidos políticos. Na verdade, como há muitos anos não se via, nos últimos dias, assistimos a um movimento crescente, fomentado pelos partidos da oposição e pelas mais retrogadas e anti-sociais associações sindicais, no sentido de condicionar a livre iniciativa do governo e o desempenho constitucional que lhe é determinado pelo mandato e voto popular.
E não deixa de haver alguma triste ironia no facto de uma punhado de professores, mais uma vez, permanecer provocatoriamente à frente de um acontecimento onde, justamente, se estimula e promove a diferença, um comício partidário, só que desta vez eram poucos e estavam envergonhados. Contaram (e bem) com a indiferença de todos aqueles que por entre eles passavam orgulhosos as bandeiras do seu partido. Tirando as televisões, acho que ninguém mais deu por eles. Se foi o ganho da semana passada, então estamos conversados, os cem mil não serviram para nada!
Havia hoje naquela gente do PS um apelo à justiça do Estado, ao sentimento de fazer o que tem de ser feito, doa a quem doer. Os socialistas que, para quem os conhece, são os mais críticos dos críticos, mesmo do seu próprio governo, sentiram uma necessidade de liberdade e uma pulsão de justiça que vão muito para além da militância partidária e que podem ser muito úteis ao PS nos próximos tempos e para as próximas eleições. Do ponto de vista partidário (Don Vito tem as suas fontes) nada ficará como dantes. É por isso que os dez mil valerão, seguramente, mais que os cem mil.