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Pode ser por decreto
Terça-feira, 8 de Janeiro, 2008Aproveitando “a política do fim” (o fim das férias judiciais, de algumas urgências, de algumas maternidades, de algumas escolas, de algum fumo, e de, por certo, um sem número de outras coisas que agora, com as pressas, não me lembro), acabem por favor com esta treta do “Bom Ano Novo” desejado ad nauseam.
Imponham uma data, dia 2 de Janeiro seria razoável (podendo passar para o primeiro dia útil seguinte, se 2 calhar num fim de semana), a partir da qual será severamente punido quem deseje bom ano novo ao próximo.
É tão mais fácil e incontroverso do que todas aquelas outras coisas de que vocês deram cabo. Para os viciados, criem salas próprias. Circulares, aluminadas, eles todos à roda, à roda, bom ano novo, bom ano novo, bom ano novo…
É que hoje já é dia 8 e quase toda a gente, com quem falei, ou me desejou bom ano novo ou me perguntou se já me tinha visto/falado comigo este ano. Já, já, asseverei eu - caso contrário lá vinha o costumeiro.
Acabem com isso, que o Carnaval já espreita e o povo, é português, começa a cair no ridículo. E eu gosto do povo. Há algum mal nisso? Acho-lhes piada. Mas assim não aguento.
Para mais tarde recordar
Terça-feira, 8 de Janeiro, 2008O cheiro é, definitivamente, algo muito menosprezado. Ao contrário da imagem, em que há mil maneiras de as captar, de as guardar, para as utilizar quando necessário for - tudo pode ser fotografado, filmado, captado e guardado. Ao limite da vulgarização.
Com o cheiro não é assim. Talvez por os haver, também, tão desagradáveis. Contamos apenas com as nossas memórias olfactivas. Cheiros há que me recordam momentos inacreditavelmente longínquos e efémeros. E, no entanto, são momentos, talvez pelo desprevenido que me apanham - aparecem em qualquer altura, indiscritivelmente agradáveis.
Tudo para dizer que nunca, como agora, senti tanto a falta de uma máquina de guardar cheiros. Para captar o perfume do meu menino de três meses - faz amanhã. O cheiro a bebé é algo de demasiado belo para ser chamado de belo, palavra que se aplica a coisas demasiado pouco belas.
O cheiro do meu filho quando bebé. Numa garrafinha - para eu poder usar enquanto o vejo crescer. Eis o meu desejo. Não que me desagrade o medrar (não o das borbulhas na cara, mas aquilo que diz o povo elas significam - “medrou”), pelo contrário, orgulho-me dele. Mas o cheiro do meu filho bebé é algo de único, que eu gostaria de poder guardar.
Para mais tarde recordar e lhe poder dizer “vês* filho, eras assim”.
* leia-se: “cheiras”, enfim, mais uma prova do que atrás disse - ao cheiro não se dá o devido valor.
BÃ-ANE-NÔVE
Terça-feira, 1 de Janeiro, 2008A.A.
Domingo, 30 de Dezembro, 2007Era algo de irreprimível.
Desde a primeira pratada sob a hóstia, a coisa apanhou-me.
Um dia, tinha eu seis anos, no restaurante do Edmundo, onde ia aos almoços de Domingo com os meus pais, não resisti a colocar o prato do pão debaixo do queixo lambuzado do senhor Eleutério, presidente da junta. Corpus Christi. Levei tantas no focinho, do senhor meu pai, secretário da junta, que ainda hoje me sobram alvéolos dentários vazios. Não só mos arrancou, a murro, aos dentes, e ainda eram de leite, como me há-de, por certo, ter rogado a praga da Vénus de Milo com braços - nunca mais os caninos floresceram.
O tempo passou. Ao meu pai, o diabo o carregue, que a pá da vaca, o dinheiro nunca deu para mais, exige dentição sólida, ao meu pai, dizia, deu-lhe um tremoço, hoje trombose, e ficou incapaz de me ir aos molares e incisivos, bênçãos do meu estômago.
E pude dar largas ao vício.
Acolitei por onde pude. Acolitei, acolitei, acolitei. Até na capela dos lampiões, ao tempo da senhora Prieto. Tenho no meu curriculum vitae a baba do Eusébio na manga da minha t-shirt dos Scorpions - não havia por ali nada que se assemelhasse a uma bandeja, despi a t-shirt e não fui de modas. Acolitei de pano.
Nos dias do Senhor e nos de belzebu. Acolitar. Acolitar sempre. Era o meu lema.
Desgraçado, fui arrumar carros para o Bairro. Destroce, destroce. Quando vinha a moeda, sacava do cesto do ofertório. Aos bêbados arriscava um ego te absolvo.
Em claro desafio à lei do “se acolitar, não conduza”, acolitei e conduzi. Acolitei em hospitais, perante os olhares de recriminação dos doentes, os de profissão e os mesmo. Acolitei em espaços fechados. Acolitei contra legem.
Um dia, Deus me perdoe, a minha mãe apanhou-me a acolitar-me. Mesmo na altura do “ai jesus que me acolito todo”. Ainda assim acolitei até ao fim. É difícil acolitar a pilinha com a direita, enquanto ostento a vela acesa na esquerda. E o cilício a doer, tão bom - não dava para parar. E o acolitus interruptus dói de ir aos infernos. Nunca mais olhou para mim da mesma forma.
Um primo meu, médico de ofício, falou-me nos A.A., associação recém-criada nas imediações da Sé de Braga. Mudei-me de armas e bagagens para a cidade da Bragaparques, deixando para trás toda uma vida de pão sem fermento.
Hoje, 30 de Dezembro de 2007, ergo-me entre os meus iguais, companheiros de ex-sacristia, e com orgulho proclamo:
- Chamo-me afixe, sou Acólito Anónimo, e não acolito há quarenta dias e quarenta noites.
pálida
Sábado, 29 de Dezembro, 2007Death in the sickroom, Edvard Munch
voltei de lá. belisquei-me com cuidado ao decidir reentrar - ainda me lembrava de como tinha sido havia pouco mais de dez anos. o cheiro da morte. da espera da morte. agora já não. havia de estar toda a gente a rir. havia de ter sido só um sonho mau. dez anos. que seria feito do meu pai, fígado marinado, morto por certo. a minha mãe, agarrada ao caixão, sem vida própria, feliz por ser a escolhida pelo casamento, entre as teúdas e manteúdas, pobres delas, herança em vida, deserdadas na morte, não como ela. ela era. bati à porta. ao de leve. dez anos. morto e enterrado. já tinha passado tempo que chegasse para descerem aquela podridão às entranhas fecundas da terra. para que floresça em malmequeres. bati. nada. bati outra vez. passos. recuei. abriu-se a porta para a escuridão. OU PARA A LUZ. entra, minha filha, olha a vírgula, outra, entra. onde raios te meteste. temos mais que fazer. discurso directo, coisa difícil de ler, ainda para mais num blog, que se quer coisa leve e divertida. vírgulas que avisam que foram e que são.
ENTREI.
carpideiras em cada canto. as mesmas de há dez anos. choramos por dinheiros. xis cêntimos por lágrima. euros por gritos de pesar. o mesmo cheiro nauseabundo. a morte cheira sempre igual. o caixão. ao canto. branco de pesar. que quando o pesar é intenso o esquife quer-se branco e de meio metro. ou ao contrário. será melhor. reformulo. que quando o esquife é branco e de meio metro o pesar quer-se intenso.
olhei para o caixão.
ENTREI.
lá dentro, de onde tinha fugido, havia dez anos, estava eu. morta por enterrar. anã ou bebé. não sei precisar. mas pequena. demasiado pequena para morrer. percebi, enfim, que havia fugido da minha própria morte. e deixado aquelas pessoas paradas no tempo. há espera do seu morto.
POR CHORAR.
bADA bING!
Longe e largo…
Quinta-feira, 6 de Dezembro, 2007Depois das maternidades, das urgências, das escolas, eis que chegou a vez de os Tribunais serem postos bem longe das populações, pelo menos das populações que têm o azar de viver nas berças.
De resto, tão mal anda a Justiça que pode ser que, assim, as coisas se endireitem, afinal, coração que não vê, coração que não sente - e não vendo (sentindo) as agruras de andar com a cruz de um processo às costas, pode ser que nos nasçam asas. Daquelas bem branquinhas, que dá vontade de depenar. E que deixemos de necessitar de Tribunais.
Com efeito, não restem dúvidas de que, mais cedo ou mais tarde, as máfias alternativas à Justiça tomarão conta dos locais não eleitos (no caso, futuro este, de nascente, selvagem).
Porque, cheira-me, as populações não estão para pagar os inconvenientes de ver a sua Casa Grande transformada num armazém de papéis, à qual os juízes virão esporadicamente realizar julgamentos.
Eu, para já, vou ter que tentar convencer os meus clientes que mais vale pagarem-me os honorários e os quilómetros da deslocação ao tribunal mais próximo, e assim poderem usufruir dos meus excelsos serviços, do que mudarem para um advogado que tenha a fortuna de estar domiciliado ao pé de um qualquer super-tribunal.
Tudo isto a propósito da reforma do sistema judicial português, que o Governo vai apresentar em breve, a qual prevê a conversão das 230 comarcas no País em 35 super-tribunais regionais. [Fonte: Lusa]
Voltarei a este assunto.
Assim sendo, foi uma derrota
Sábado, 1 de Dezembro, 2007Fuga de cérebros
Sábado, 1 de Dezembro, 2007
Os perigos das cifras
Sexta-feira, 30 de Novembro, 2007A que partido se referirá este? É que a coisa encaixa que nem uma luva no do Gil Garcia.
Que merda de dor de costas*
Sexta-feira, 30 de Novembro, 2007A verdade é que, para além do tempo, faltam-me inspiração e indignação, que isto de escrever em blogues tem de levar q.b. de tais elementos. Outra verdade é que o aspecto do blogue estava assim a modos que pró copinho de leite, e leite por leite pode ser que o par de mamas ajude. Indignado já estou. Desculpa lá, ó gibelino, mas deixemos agora esta coisa assim meia dúzia de dias. De resto, e atento o aumento, de fim de semana para fim de semana, do tamanho do teu pecado, já imenso há mês e meio, eu até podia colocar em cabeçalho o dito do John Holmes que tu tinhas que me desculpar e continuar por aqui a (não, tal e qual eu) escrever.
* será do mesmo?
P.S. - Li agora a biografia do arrastado (ou arrastador) e já estou mais bem disposto. A escrita na terceira pessoa tem destas coisas. Dispõe bem. Melhor só mesmo as críticas literárias do Público.
SPOILERS * SPOILERS * SPOILERS
Quinta-feira, 22 de Novembro, 2007Será que o autor desta coisa que não chego bem a perceber o que é, e cujo alcance e interesse estético-táctico de todo em todo me escapa, está familiarizado com o termo que titula este post? É que parece-me premente, e especialmente para os seus incautos leitores, que passe a co-titular coisas do cariz daquela com o tal, avisado e sensato, termo. Se quiser em português, pode ser qualquer coisa como: Quem estiver a ler a merda do livro que resolvi chamar de “do mês” não leia este post!
Catano!
As voltas da vida
Segunda-feira, 19 de Novembro, 2007“Que grande cocó” e “Que grande arroto” são as frases que, no último mês, com maior prazer tenho proferido.





