Urgência/Emergência/Incompetência

A propósito do encerramento de 5 unidades e cuidados de Saúde às 00h, e agora que a BOA decisão foi tomada, é preciso que se faça o que deveria ter sido pré-requisito. Na verdade, e por mais que custe às populações ver-lhe retirado o acesso (demasiado) fácil a uma unidade de saúde, é verdadeiramente incomportável manter um espaço aberto, com condições minimamente capazes de solucionar problemas, quando a média de visitas durante o período nocturno se coloca entre os 2 e os 5 utentes. Mais interessante (e exigente, bem sei) seria fazer um cruzamento desta valorização quantitativa com os motivos que levam as pessoas às urgências. Seria lícito e razoável pensar que às 5 da manhã de um qualquer dia vai à urgência quem subitamente se viu acometido de grande desconforto, mas houvesse triagem de Manchester em todos estes SAP ou Hospitais e rapidamente se perceberia que:
1) Aproximadamente 80% dos utentes (face aos 90% do período diurno) vão com problema não urgente (muitos com mais de 7 dias de evolução)
2) A manha do português de gema é ir às 5 da manhã porque terá menor tempo de espera para atender a sua unha encravada (é vê-lo reclamar quando o enfarte das 5h05 lhe passa à frente, logo dele, que teve que se levantar ás 4h30 para que o médico mal-humorado (estes gajos burgueses, gordos e ricos são sempre mal humorados) o visse mais depressa).
Contudo o problema não se esgota aqui nem nenhuma das facções envolvidas (povo/governo/Ministério/ARS’s/médicos) lhe passa impune.
Parece-me inquestionável que:
a) existe utilização abusiva e absurda das estruturas prestadoras de cuidados médicos. Culpas óbvias aos abusadores, mas não menos óbvias a quem tem o dever de os (in)formar , aos cuidados de saude primários (médicos de familia, ARS como entidade supostamente estruturadora destes serviços). Menos óbvia mas importante: a questão multidisciplinar e sociológica da crescente desresponsabilização de cada um face à própria saúde ou dos entes tutelados: desde quando qualquer embriaguez, diarreia ou espirro tem de ir à urgência (ou de como os meus pais me criaram em perfeita espiral de insanidade e risco)
b) se se opta (e reforço: BEM) pelo encerramento e re-estruturação de unidades do SNS seria mandatório que fossem criadas as condições necessárias para servir a população, nomeadamente a formação efectiva de pessoas para cuidados pré-hospitalares durante o transporte (agora presumivelmente mais longo) do doente ao hospital. A solução SIV (Ambulâncias com tripulante e enfermeiro com formação especifica de 3 meses, para Suporte Imediato de Vida) é boa mas mal planeada. Porque não pensar-se em fazer um curso efectivo de paramédicos? Claro que nada disto se faz em 6 meses..
28 de Dezembro, 2007 às 15:27
Divulgação
Um Blog que vira dois livros
“Camarada Choco”
e
“Camarada Choco 2”
António Miguel Brochado de Miranda
Papiro Editora
Papelaria “Bulhosa” Oeiras Parque, Papelarias “Bulhosa”, FNAC ou http://www.livrosnet.com
Tema: Haverá uma fronteira entre os Aparafusados e os Desaparafusados?”
Filmes de Apresentação no “Youtube” em “Camarada Choco”
28 de Dezembro, 2007 às 15:34
Chamarada coco,
Salve à pertinência do comentário. é o regozijo de qualquer blogger. Ganhaste um fã. Abraço
28 de Dezembro, 2007 às 16:10
Fotografia de página inteira…
Arranja lá isso, pode ser?…
28 de Dezembro, 2007 às 16:12
Caro carlos, se me explicares como, com o maior prazer.
Abraço
28 de Dezembro, 2007 às 16:17
Deixa a foto como está, caramba. Que coisa fantástica.
28 de Dezembro, 2007 às 16:18
Caro Afixe,
Agora já a encolhi um pouco…ficaremos por solução intermédia, então
28 de Dezembro, 2007 às 16:22
anda aqui um gajo a fazer pela vida, posta, posta… e ninguém faz comentários, chegam aqui os gajos importantes e é isto
28 de Dezembro, 2007 às 16:24
Tens razão: A um post sobre emergência acorre logo um choco que pensa: “se fala de emergência deverá querer comparecer na livraria bulhosa no dia X e comprar 10 dos meus livros. É melhor fazer publicidade.”

28 de Dezembro, 2007 às 16:32
28 de Dezembro, 2007 às 16:42
Caríssimos, só queria lembrar, caso não seja deveras aflitivo, que para além de um óbvio interesse por leitura de cordel e um problema evidente de dificuldade de dimensionar imagens, este post tem umas letras por baixo, que, ainda que signifiquem pouco, foram conjugadas com alguma intenção.

Muito obrigado pela atenção.
28 de Dezembro, 2007 às 19:58
[...] fecho de unidades de saúde não passou ao lado do Bada Bing!.Que concorda com a decisão do ministro Correia de Campos e explica porque apoia a política do [...]
29 de Dezembro, 2007 às 15:15
Estando neste momento a viver intermitantemente entre Portugal e Inglaterra e conhecendo a realidade dos dois locais, parece-me que com 4 medidas se resolveria o problema das urgências nacionais (e considero aqui no mesmo saco as consultas não programadas):
1) Educar toda a população em recorrer ao serviço telefónico SOS Saúde em primeira instância de forma a triar. Já fui confrontado com vários problemas em Inglaterra que foram unicamente resolvidos pelo telefone.
2) Proibir os médicos que trabalham no sector público de trabalharem também no sector privado para evitar os conflitos de interesse. Estou careca de ouvir casos de médicos a recomendarem no público as suas clínicas privadas.
3) Atribuir apenas 1h por semana aos médicos, dentro do seu horário de trabalho, para receberem os delegados de informação médica. Quantas vezes não tive de secar para ser atendido enquanto o médico atendia 2 ou 3 destes tipos de seguida.
4) Instituir a regra dos 15min por consulta que há em Inglaterra. Muitos idosos vão ao médico por companhia. Quantas vezes passam lá 45min ou mais enquanto toda a gente espera e se atrasa a fila no atendimento. Em Inglaterra temos 15min certinhos. Se depois disto não dissemos tudo, temos de ir a outra consulta (marcada por telefone, o que também é conveniente). Isto iria afastar os que lá vão por desporto.
29 de Dezembro, 2007 às 17:46
Caro Bruno,
Entendo as suas sugestões, e algumas delas, no contexto certo têm uma aplicabilidade possível, e, ainda que não solucionando , melhorariam a prestação de cuidados, contudo, parece-me que alguns reparos devem ser feitos:
1) parece-me que fala apenas num domínio restrito da realidade médica, que é a clínica geral/medicina familiar, ou seja, no contexto de consulta. Só assim se justifica que nos fale de tempo limitado para atendimento ao utente, que evidentemente não se coloca em contexto de urgência, ou ainda da existência de Delegados de Informação Médica, cuja presença nas urgências hospitalares é, há muito, proibida.
2)Ainda a propósito dos DIM, a hipótese de condicionar os médicos a uma hora de contacto semanal é descabida. Se se considera que o tempo com a informação médica é desperdício então este deve ser eliminado. Se se parte do principio que este é, de facto, tempo de informação médica, e, como tal, veículo fundamental de actualização cientifica, então essa limitação constituirá ela mesma um absurdo, ou, no mínimo, um obstáculo descabido ao conhecimento. O tempo da promiscuidade entre medicina e industria farmacêutica não acabou (e parece-me interminável como o conflito do médio oriente) mas tem de se re-dirigir o foco para outras áreas (venda de fármacos sem prescrição, troca de medicação sem autorização médica, congressos fantasma, prescrição à margem das guidelines internacionais, controlo de qualidade…) sob pena de nos entretermos constantemente com o peixe miúdo.
3) Quanto à promiscuidade entre interesse público e privado por parte do médico: sim, é uma questão importante, com múltiplas abordagens possíveis. a) Quando se criam condições para que o médico possa definitivamente ser funcionário do SNS, sendo justamente recompensado por isso? b)É ou não igualmente grave o médico que acompanha o doente no consultório privado e o encaminha ao “seu” hospital para que faça os Exames complementares de diagnóstico mais rapidamente (usualmente com pseudocritério de urgência) e de forma comparticipada. c) continuando no peixe miúdo vs graúdo; é o não mais grave o conflito dos Hospitais SA (bandeira do governo do nosso exilado Sr.Barroso) entregues a grupos económicos poderosissímos e com acordos verdadeiramente surreais com o estado?
Sim, concordo em absoluto com a necessidade de informação e educação da população, e, no mesmo sentido com um forte investimento na quantidade, organização e qualidade dos cuidados primários de saúde, e penso que nestes dois pontos reside grande parte da solução do problema.
Caro Bruno, muito obrigado pelos preciosos comentários, espero que possamos manter esta preciosa conversa.
29 de Dezembro, 2007 às 19:40
Antes de mais queria só esclarecer que o meu comentário se referia a Urgências, no contexto de problemas médicos que embora não ameacem a nossa vida carecem de resolução urgente (no dia e não daqui a uns dias ou semanas) e não Emergências no sentido de estar em risco de vida iminente.
Sobre os DIM, claro que se tem de considerar o tempo que estes passam com os médicos como tempo útil. Todo o tipo de actualização de conhecimentos é importante para o desempenho de qualquer profissão, o que não quer dizer que um empregado possa despender todo o seu horário nessa tarefa. Dada que não saem fármacos novos todos os dias no mercado (ou pelo menos enquanto leigo na matéria é o que me parece), penso que 1h semanal seria mais do que suficiente para o efeito.
Quanto à promiscuidade entre público e privado, penso que é um problema gravíssimo do nosso sistema de saude e urge acabar com ele nos dois sentidos. E não falo só nos sistema de saúde mas também com outros, como o sistema educativo, em que há professores que chumbam alunos para os levarem para o sistema privado ou para que não alcancem o exercício da profissão e não entrem em competição com as empresas que eles gerem.
Conheço N casos neste domínio. E quanto mais conheço mais me enoja o estado flagrante da corrupção no nosso país, que se imiscui entre todos os sectores da sociedade. A única razão porque o nosso país continua a ser listado sem índices mais altos de corrupção nas listas internacionais é porque Portugal tem uma economia paralela com tanto ou mais peso que a principal.
29 de Dezembro, 2007 às 20:07
Caro Bruno,
Percebo a que te referes em relação a Urgência, trata-se apenas de uma diferença de nomenclatura e não de conceito. Esclarecendo-te, na medida da minha capacidade, digo-te que acho então que te referes a consultas urgentes no Centro de Saúde e não a Urgência Hospitalar. O que na verdade se passa é que a insuficiência do cuidados de Saúde primários (Centros de Saúde) em Portugal, que se deve a todo o tipo de factores que podes logicamente imaginar acaba por resultar no facto dos utentes utilizarem a urgência Hospitalar como fim de linha, ultimo recurso para a resolução de problemas que fogem ao âmbito do imediatismo pressuposto no hospital. Daí que eu insista no forte investimento - humano e estrutural - que deve ser feito na base, para que se possa disponibilizar o hospital para aquilo que, de facto, deve servir. Voltando à questão que nos trouxe até aqui: se o problema está (maioritáriamenta) nos cuidados de saúde pré-hospitalares, é mera estratégia de ilusão tentar que o hospital os resolva. Um exemplo prático e corriqueiro do dia a dia de um hospital: Um doente hipertenso vai ao Serviço de Urgência porque a TA não anda controlada. Em urgência controla-se o momento, mas a menos que o utente depois seja acompanhado (implica medir a TA várias vezes e ver a sua medicação ajustada em função desse registo) quando ele sai da urgencia não tem o problema resolvido. Faze-lo acreditar nisto é iludi-lo. Perigosamente. Porque se trata da saude dele. É evidente que este doente terá razão quando diz que não consegue marcar consultas no médico de família. Mas repara: legalmente o medico de família tem de ter vagas para doentes que surjam no próprio dia, caso não as disponibilize está a infringir a lei, e é no Centro de Saúde que esse direito deve ser reivindicado. Este doente precisa de um acompanhamento que jamais poderá ter em contexto hospitalar, onde é visto em dias diferentes, por médicos diferentes, com ideias diferentes, e onde ao dispor do médico estão recursos vocacionados para a resolução de problemas urgentes. Pelo que, manter urgências e SAPs desnecessariamente abertos é manter o sol tapado com uma peneira muito reles, não achas. O compromisso para com a saúde de outrem pressupõe, antes de mais, respeito e seriedade para com a mesma.
Relativamente à informação médica, repito-te o que te disse anteriormente: está longe de ser um problema maior, nos moldes em que o pões. A farmacologia progride e forma exponencial, mas mais que pensar por aí, devemos ter em conta que o número avassalador de fármacos no mercado implica que a revisão dos já conhecidos se torna vital na pratica clinica. Se puseres em causa o real contacto médico/Dim, e se de facto existe partilha de conhecimento ou apenas de conversa leve e simpática, aí entramos noutro domínio, muito mais cultural e ontológico que cientifico do ponto de vista estrutural. Há coisas que mudam devagar, infelizmente.
A promiscuidade industria farmaceutica/saúde, está longe de ser exclusivamente nacional. Alias, é uma importação nacional, em pequena escala (do mal o menos).
De resto, concordo contigo.
É sempre um prazer que voltes, a conversa fica boa e interessante,
abraço
5 de Janeiro, 2008 às 19:15
[...] bar já foram discutidas algumas das considerações da clientela, nomeadamente aqui e aqui pelo que não fará muito sentido uma repetição exaustiva daquela que é a opinião dos bebedores [...]