Matemática Simples

A esperada reacção da trupe à opção de Sócrates por deixar cair a promessa eleitoral de referendar o tratado que visa ratificar e legitimar a União Europeia não se fez esperar.
Caro Daniel, não entendo (ou entendo perfeitamente, ainda não decidi) a frase chavão que utilizou para descrever este facto. Não terá, decerto, dúvidas, que a opção de Sócrates é uma opção em favor de uma causa maior e com prejuízo da agenda politica nacional do próprio, ou terá?
Sócrates “herdou” esta promessa do esquivo José Durão Barroso. Conseguiu-se, depois de aturado trabalho, um tratado europeu - o tal de Lisboa - que, se não ratificado coloca em cheque todo o conceito de UE. É, provavelmente o último tratado deste género que se consegue, dada a reprovação ao anterior a que o povo francês o votou.
Urge, portanto, que a coisa não se complique, de acordo?
Se Sócrates optasse pelo prometido referendo:
a) Seria aprovado
b) Seria mais uma vitória pessoal de Sócrates
c) Finalmente auscultaríamos a opinião dos Portugueses sobre a União Europeia e calava-se o ímpeto aos pontuais anti-europeístas que por aí palpitam
Ou seja a+b+c= 3 vitórias de Socrates (mais a 4ª que seria uma promessa eleitoral cumprida, mas essa é oferecida)
por outro lado:
d) Abria-se a possibilidade a outros estados membros partirem para referendo (não esquecendo o exemplo recente de França (Sarkobruny já vetou possibilidade de novo referendo, desta vez))
e) Teríamos uma abstinência de tal ordem que Saramago começaria a escrever 3 sequelas do “Ensaio sobre a Lucidez”
f) Teríamos os portugueses a votar sobre um tratado que não conhecem, não leriam, e seria mais um episódio da militância incorrigível e desportiva com que o nosso eleitorado vota
d+e+f= Nenhum prejuízo para Sócrates na perspectiva pessoal; possibilidade de falência do tratado de Lisboa, colocando a UE em causa.
Matemática simples: (a+b+c)+(d+e+f)= Prejuízo pessoal do PM, possível ganho global.
E sabe, caro Daniel, eu gosto de quem decide assim. Fujo da critica fácil, quase ao nível da laracha e percebo a intenção das coisas. Com um pouco de bom senso perdem-se uns quantos slogans emblemáticos que enchem blogues e jornais de cores e adrenalina. Mas eu não o lamento. Não é defeito, é feitio!
Um abraço
9 de Janeiro, 2008 às 4:03
«agenda politica nacional do próprio»
É esse o nome que se dá ao programa eleitoral sufragado pelos portugueses? A agenda não é do próprio. É do país. Assim deve ser a democracia.
9 de Janeiro, 2008 às 4:16
Estimado Daniel,
sim é precisamente esse nome que dou, e explico-lhe porquê: porque se o assunto é personalizado no sentido em que o fez ( e seguramente não será apenas o Daniel que o faz) tentando imputar a Sócrates o seu defeito (ou feitio) como causa maior da queda do Carmo e da trindade, é personalizando-o, isto é, dando-lhe a perspectiva diametralmente oposta, que lhe tento demonstrar que nem nessa perspectiva o remoque faz sentido.
Isto é: Nem olhando à perspectiva pessoal do homem ( ao que ele perde em popularidade perante a opção que acabou de tomar) se lhe pode apontar culpa. Que frase escolheria o Daniel se daqui a um ano houvesse referendo e caisse o Tratado? Já pensou nisso?
9 de Janeiro, 2008 às 10:27
e tinha eu pensado escrever sobre isto, safa, como diria o nosso estimado Jorge Coelho. O texto está genial
(isto sim, merece um boneco dos teus)
9 de Janeiro, 2008 às 20:16
Genial, não tivesse Sócrates sido eleito pelo programa eleitoral que apresentou aos portugueses e que, mais uma vez, hoje subverteu. Restam pouquíssimas promessas que Sócrates tenha cumprido, já não há tempo para apresentar resultados e, de toda a história deste mandato, a desconfiança relativamente à classe política castigará a nossa democracia usurpada por Sócrates com ainda mais alheamento na participação cívica dos portugueses na construção da nossa sociedade e ainda mais abstenção nas próximas eleições. Será isto motivo de tanto regozijo?