Atchiiiiim!

Santinho!

Um breve périplo pela blogosfera diária permite perceber que assuntos mais abespinham os internautas nos dias que correm: A Saúde e o Tabagismo (para já que se mantenham os dois assuntos em separado, já que o nível da discussão ainda não tem pontos de intersecção). Entende-se. Mas poucas são as vezes em que se encontra alguma sensatez no debate. Parece que todos temos alguma dificuldade em nos colocarmos longe dos extremos de opinião (esta sede da opinião firme é um fenómeno particularmente acirrado pelo espírito blogger). Na procura de ontem, contudo, pude encontrar, como é hábito no Aspirina B, uma opinião bem interessante, secundada, entretanto, por algumas outras a pedir discussão.

Neste bar já foram discutidas algumas das considerações da clientela, nomeadamente aqui e aqui pelo que não fará muito sentido uma repetição exaustiva daquela que é a opinião dos bebedores residentes.

Opiniões como a do estimado rvn , inflamada e altamente estilizada, são difíceis de rebater. Entenda, meu caro, que torna demasiado hermético o seu discurso mordaz, de onde se extrai a sua discordância, mas onde não se adivinha uma perspectiva, uma alternativa ou, sequer, uma ideia nova. A perspectiva de diabolizar o ministro, tal como aquela que ironicamente propõe e lhe é antagónica, vale igualmente de nada, como tão bem ilustrou. Concerteza que não achará que os inúmeros problemas do SNS surgiram de um momento para o outro, ou que tudo estaria bem antes de se iniciar esta tentativa de mudança, pelo que o convido a uma reflexão e debate mais aprofundado, já que me parece que, de facto, há muito a debater. Por exemplo, julgo não estar errado quando presumo ser natural do Arquipélago dos Açores, que me diz, nesse sentido, acerca da inexistência de taxas moderadoras no SNS da sua terra natal? Parece-lhe justo? Adequado? Uma resposta necessária à insularidade? Que mefistofélica figura encarnará Correia de Campos se impuser o fim dessa desigualdade? Entenda que o questiono sinceramente, por achar que estará melhor colocado para ter uma opinião valida que um qualquer continental.

Estimada Susana, consegue imaginar a dificuldade de impor um sistema semelhante ao de França em Portugal? Consegue imaginar o quanto seria infinitamente mais difícil fazer entender a população que teria de ter um seguro de saúde que ter que fazer 15kms de ambulância até ao SU mais próximo? Tem noção de quantas pessoas que recorrem actualmente aos hospitais o fazem na condição de isentos de taxa moderadora? E que de outra forma não o poderiam fazer? Quanto ao mais surpreende-me, de facto, que extrapole de uma experiência isolada de recurso a serviço médico em França para ser tão contundente na confrontação com os Portugueses. Até se fala do juramento de Hipócrates. Não me parece que esteja a ser muito justa quando o faz. A situação que descreve como tendo ocorrido com o seu filho ocorre, diariamente, centenas de vezes em Portugal. Outras não, como não ocorrerá sempre em França. O que me parece enviezado é tomar a parte pelo todo e o todo pela parte, de forma arbitrária, conseguindo, assim, sustentar uma opinião. Não me interprete mal, imagino que em França haverá recursos a funcionar bem melhor que em Portugal, mas o que não aceito é que se presuma ser apenas na área da saúde, isto é, existem diferenças de tal ordem entre os países que terão reflexos em todas as áreas. E o que acho de todo inaceitável é que personalize a questão: os médicos de frança são dignos e competentes, os de cá serão uns bicharocos arrogantes e ambiciosos. Uns juraram a Hipócrates, outros a Hipócritas. Honestamente, não me parece!

E continuando nas diferenças entre os dois Países, o que também acho engraçado em toda esta discussão é que toda a gente está pronta a apontar culpados, mas ninguém olha à própria culpa. Falou a Susana dos atrasos. Sim, dos médicos. Mas pergunto: Portugal é um pais de pessoas pouco pontuais ou de médicos pouco pontuais? Será legítimo apontar um defeito de todos nós apenas aos outros? Os médicos deste país são, maioritariamente, oriundos desta sociedade, da qual todos somos responsáveis. (e depois há os doentes que marcam consultas profilaticas ás quais não comparecem porque entretanto já não precisam, os utentes que recorrem porque querem baixa fraudulenta..blá blá blá).

Concordo plenamente quando a Susana fala da criação de condições necessárias para responder ao fecho de apeadeiros inúteis, como verá num dos posts anteriores.

Espero que possamos continuar esta conversa tão estimulante

10 Comentários a “Atchiiiiim!”

  1. susana diz:

    caro nicholas edwards, os seguros de saúde de que falo são para o pagamento da parte do utente no próprio serviço nacional de saúde. as mutuelles têm baixo custo, mas permitem não só alguma compensação (sem dinheiro o SNS será inviável) como uma supervisão de eventuais abusos (ao ser uma seguradora, certamente haverá maior propensão para investigar irregularidades, abusos, por vezes até com a conivência dos intermediários nos serviços, como cá acontece). precisamente, desviam quem pode pagar dos serviços privados para os serviços públicos, aumentando o investimento nestes.
    se ler os meus comentários subsequentes verá que referi essa parcialidade do meu comentário anterior. mas não tenha dúvida que há muitos e muitos profissionais de saúde (e não referia apenas os médicos) a tratar os doentes, que ainda por cima já se encontram em situação de grande fragilidade, com grande arrogância e até desprezo. fazem-no porque podem, sobretudo porque, ao contrário do que acontece no exemplo que referi, os utentes e consumidores por cá ainda não são reivindicativos e encolhem-se perante o livro de reclamções. se é verdade que a minha experiência “francesa” foi singular, o meu relato não ilustra apenas a minha experiência, lá como cá, mas também a de outras pessoas, incluindo familiares próximos. por outro lado, esta cultura portuguesa de deificação dos médicos, entre as pessoas mais humildes, que ainda “se vestem” para ir ver o senhor doutor, tem o revés da verdadeira discriminação a que são sujeitadas. não me queixo muito em causa própria, exceptuando as cenas aviltantes e degradantes pelas quais passei nos meus partos, mas pelo que me contam pessoas mais carenciadas; o mais informado e seguro é mais bem tratado do que o ignorante e, por conseguinte, mais necessitado.
    sobre a pontualidade, veja o meu último comentário no aspirina. mas digo-lhe que não faz sentido fazer-se marcação de consultas a começar às 9 da manhã se for dado adquirido que o senhor doutor nunca chega antes do meio-dia. cheguei a passar pela situação caricata de perguntar se a consulta estava atrasada e obter a resposta «mas a senhora veio à hora?! já deveria saber que tem que dar pelo menos hora e meia de desconto!» se assim é, não vejo porquê não fazer o desconto logo na marcação… atrasos? penalizações para todos, a ver se não passam todos a ser pontuais. digo eu, que chego sempre atrasada, mas cada vez menos. no meu trabalho, se me atraso, descontam-me no rendimento. e nunca ouvi ninguém dizer que estava tudo bem quando o professor se atrasava, por sermos um país de atrasados. que somos.

  2. Nicholas Edward diz:

    Cara Susana,
    sou o primeiro a colocar-me a seu lado na luta contra a deificação dos médicos (ou outros profissionais que sejam), que tem raízes culturais profundas, e apenas se sente mais no médico que no advogado porque, como diz e muito bem, o doente está, à partida, fragilizado. E sim, concordo igualmente com a falta de poder reivindicativo de que fala, mas não exactamente no mesmo sentido. Ficaria decerto surpresa ao conhecer o número de reclamações que são feitas, diariamente, num serviço de urgência aos médicos. Mas ficaria horrorizada ao perceber que 95% das queixas são tão absurdas que melhor seria se nunca tivesse sido feitas. Reclama-se, essencialmente,sem motivo. Não se questiona um diagnóstico ou um tom de voz, questiona-se se não se foi atendido por ordem de chegada (o conceito de triagem pouco interessa), porque as análises demoram muito (ainda que o factor limitante seja puramente mecânico) ou porque o médico não me fez a radiografia e já me doem as costas há 3 anos (acredite-me, não brinco. Pouco interessa que seja na melhor intenção do utente que se opta por não fazer um exame, ou até que lhe sejam explicados os riscos associados. Estará decerto familiarizada de como os exames são, tantas vezes, o factor terapeutico mais importante para o doente. É curioso ver como os europeus, essencialmente nórdicos, questionam o médico se lhe é proposto um Rx - será mesmo necessário - enquanto que o português faz ao contrário). Por isso sim, falta-nos poder reivindicativo, e saber do que reclamar e onde reclamar (mais um exemplo, correndo o risco de ser exaustivo: porque se reclama de 2 horas de espera para atender uma gripe numa urgência hospitalar, e não se reclama no CS, quando o médico, que deve receber um numero definido de doentes “urgentes” por dia, não o faz?)

    Todo o enquadramento cultural e social português está intrinsecamente implicado neste tipo de problemas, o médico é só uma figura parcelar, a quem é exigida diferença por ser médico.
    É evidentemente escabrosa a história dos atrasos nas consultas, inadmissivel e intolerável. Como acho em relação à humanidade de uma forma geral, e com muito pesar, as pessoas só aprendem pela punição, de onde, evidentemente, os não cumpridores devem ser punidos. Severamente.

  3. Nicholas Edward diz:

    E Susana, não resisto a mais uma achega:
    Conheço muitos médicos, se quisermos simplificar a conversa, dos dois tipos. Quer tentar adivinhar quais têm mais reclamações?
    Aqui fica uma história verdadeira, recente, e que serve de prototipo:
    Um médico recebe em urgência um doente idoso por uma dor cervical há 3 semanas, sem qualquer pancada ou traumatismo. Dir-se-á de aparecimento espontâneo. Depois de observado e inquirido o doente refere não saber a medicação que faz diáriamente, ao que o médico responde que, para protecção do utente, terá que adoptar por uma medicação conservadora que não coloque em causa a medicação que o doente fará para as doenças que referiu ter. O doente, já pouco satisfeito, pergunta se não é melhor fazer RX. O médico explica que não, elucida os motivos pelos quais a necessidade não se impõe, mais acrescenta os efeitos deletérios associados a um Rx desnecessário. O doente sai, medicado.
    Duas horas depois o doente volta à mesma urgência. É observado por outro médico, que pede 3 Rx ao doente, perante a mesma história, sem factos novos intercorrentes. Sentindo necessidade de se justificar ao colega o 2º médico diz ao 1º: “epá, é melhor senão o gajo não parará de vir aqui, sempre a chatear um gajo. Eu sei que ele não tem nada no Rx mas..”
    Na altura em que tem alta o doente faz questão de abraçar o 2º médico,com o outro por perto e dizer que médicos como ele é que fazem falta ” e não sacanas como o seu colega”.
    Susana, eu vi, o que lhe conto. E não exagero nem omito nada de essencial.

    Com isto apenas lhe quero dizer que a população geral e médica normalmente se justificam, se merecem, porque fomentam comportamentos inadequados uns em relação aos outros.

    Não faço nenhum tipo de apologia à classe médica. Acho é que, no meio disto tudo se faz sempre uma apologia injustificada ao povo. Que também tem o dever de se educar.

    Saudações

  4. susana diz:

    começamos a estar de acordo. não me referia a queixas dessas, obviamente, são realmente absurdas. e lá está, fala de situações estúpidas, como o entupimento das urgências hospitalares com resfriados; por vezes vê-se nas urgências pediátricas que 90% das crianças em espera correm animadamente de um lado para o outro. bastaria saber-se que crianças activas e alegres não podem estar em situação de emergência para se ter uma atitude mais responsável, não as expondo, ainda por cima, ao risco de saírem dali doentes, por algum contágio dos outros 10%. conheço uma senhora que leva as filhas às urgências por terem dores menstruais e só fica descansada quando elas são «postas a soro». referia-me a casos diferentes. exemplo, num centro de saúde, com uma conhecida minha: «tenho que lhe receitar uns medicamentos, mas como já estou farto de a aturar e detesto as pessoas da sua profissão, vou primeiro ali fumar um cugarro e já venho». pergunta: e reclamou? resposta: não, porque estava tão vexada que só queria fugir dali e, além disso, se ele tinha feito aquilo «era porque sabia que se safava e ninguém acreditaria nela».

  5. susana diz:

    era cigarro, evidentemente…

  6. Nicholas Edward diz:

    Estimada Susana,
    bem sabemos que a estupidez não escolhe classes ou profissões. Não se trata de isentar ninguém, trata-se de ter uma perspectiva mais completa das coisas.
    Será sempre bem vida aqui, a este bar barulhento (ah…aqui é permitido fumar) :)

  7. susana diz:

    já deixei de fumar, mas não me incomoda o passivo… :)

  8. May diz:

    Mandem o fumo para o lado sff… e não vale a pena chamar-me extremista!

  9. Nicholas Edward diz:

    Extremista. :)

  10. don vito diz:

    eu cá tenho uma classificação para os médicos bem mais prosaica, há dias, a jantar com 3 médicos amigos, todos divergiam na medicação para uma arreliadora infecção nos dentes, optei por seguir a opinião do estimado meireles que me disse que com a sua poderia continuar a beber vinho. :)

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