Margaridas
Por razões que enchem de contentamento a minha família e os amigos, os meus últimos dias foram passados na maternidade do hospital de S. André. Observando, num eterno retorno, como dizia Mircea Eliade, a dedicação, o carinho e a construção de sonhos e projectos de vida de tantas mães pelos seus bebés, dei por mim a pensar que hoje há quem pretenda condenar as mulheres em tribunal por, em circunstâncias muito dolorosas da sua vida pessoal, não terem tido a possibilidade de amar assim.
A interrupção da gravidez é, porventura, na vida das mulheres, a experiência mais traumática e dolorosa por que podem passar. Deixa marcas que nunca se apagam. Destrói a dignidade interior e fere, por vezes de forma irremediável, a natural pulsão maternal. As mulheres já se condenam o suficiente a si própria e dispensam bem o julgamento dos homens. Compreender a dor e o sofrimento de mulheres que, em condições sub humanas, com riscos para a sua própria vida, se submetem a uma interrupção da gravidez é permitir que elas recuperem a sua dignidade pessoal e, se assim o entenderem, a função maternal. E isto não se alcança com um julgamento e uma condenação em tribunal. Votar SIM no próximo referendo não é defender uma “agenda de morte” é, mais do que tudo, um combate pela vida. Pela vida das mulheres, sobretudo das mais frágeis e desprotegidas; Pela vida das crianças que têm direito a uma família que lhes dê amor e que delas cuide; Pela vida de todos nós, da nossa cidadania e da nossa humanidade.
Votar SIM, por todas as mães e por todas as Margaridas que vi nascer felizes nos últimos dias e que vão continuar a nascer.
Este texto foi uma das minhas contribuições para a discussão da despenalização do aborto, há uns meses atrás. Hoje, com a divulgação dos dados disponíveis sobre a matéria, sinto que fiz o que devia ter feito. Não é impossível, nem tão pouco indesejável, ligar uma coisa à outra.
29 de Novembro, 2007 às 12:17
Caríssimo Don Vito,
O que se conseguiu, neste triste país, não foi a despenalização. Pessoalmente, estou-me nas tintas para penas ou prisões. O que me preocupa é o atropelo à ética. Os fetos abortados são o que são: abortados. Resultado de atropelos à ética e aos direitos humanos.
O aborto em Portugal não está apenas despenalizado. Está legalizado, liberalizado, banalizado…
É, agora, mais um “serviço” médico.
É, agora, mais um “direito” reprodutivo…
O aborto por vontade da mãe é algo de duríssimo para a própria. Ela não precisa de um Tribunal ou de uma prisão para piorar as coisas. Mas também não precisa de alguém a dar-lhe palmadinhas nas costas, a dizer que o aborto é um “seu direito”.
Não temos o direito de tirar a vida a ninguém.
Mesmo quando esse alguém é nosso filho ou filha.
Não é um direito. Mesmo que agora seja lei. Mesmo que tenhamos que aturar com os Correias de Campos desta vida. Ser legal e ser ético não são sinónimos. Como, felizmente, nos fez ver recentemente o bastonário da Ordem dos Médicos, Dr. Pedro Nunes, ao evitar que Correia de Campos insultasse o legado ético de Hipócrates.
Um abraço,
29 de Novembro, 2007 às 12:23
Ah, mais uma coisa, a ética nunca se regeu por números nem pelas leis da quantidade.
Mudar a lei do aborto, tornando-o legal e até subsidiado pelo Estado, é um atentado contra a ética e contra o mais elementar humanismo.
Mesmo que o número de abortos se reduza com esta lei (facto altamente discutível), um acto não ético nunca deve ser usado para conseguir alguma redução de um mal. Os bons fins não justificam os maus meios.
Matar é sempre um erro ético. Mesmo que a legalização da morte de fetos permita, eventualmente (discutível), reduzir o número de mulheres que recorrem a este novo “serviço”…
Como também é mau procurar forçar os médicos, que foram formados na boa e milenar tradição hipocrática de defender a vida humana (e não exterminá-la), a cumprir uma lei iníqua.
Um abraço,
Bernardo
30 de Novembro, 2007 às 10:39
meu caro bernardo e se comentasses o post ?
a discussão sobre o referendo ao aborto já foi feita, embora se possa sempre retomar…
palmadinhas nas costas às mulheres que abortam ? onde é que leste isso ? também não cometo a indelicadeza de dizer que te indigna o aborto medicamente assistido mas se for for às escondidas, sem condições dignas, etc, já não te importas com isso. repara que no fundo é isso que acontece.
Gostava mais que comentasses o post é assim tão difícil ?
abraço
1 de Dezembro, 2007 às 13:05
Don Vito,
Eu comentei o post.
Penso que há pouco espaço para dúvidas quando noto que votaste “SIM”. Quem votou “SIM” concordará com a liberdade da mulher para escolher abortar.
Eu não concordo.
Se uma mulher decide abortar, é sempre uma decisão errada e ilegítima. Matar alguém indefeso e inocente é sempre uma decisão errada e ilegítima.
Se tal crime é cometido no anonimato, na clandestinidade, é um crime terrível.
Se tal crime é cometido numa clínica pública ou privada, legalizada, e sancionada pelo Estado, que deveria ser o garante do direito à vida dos indefesos, tal crime terrível não só mancha a própria mãe e respectivos “médicos” e “parteiros” (se é que tais palavras são adequadas), mas também se mancha toda a consciência colectiva da sociedade e se mancha terrivelmente a (ir)responsabilidade do Estado.
Se isto não é comentar o que escreveste, imagino que gostarias talvez mais se eu entrasse em lirísmos acerca do sofrimento de uma mulher que aborta. Esse sofrimento é real, é terrível, é pesado, é complicado de apagar (se é que se apaga alguma vez). Mas esse sofrimento é a consequência de uma decisão errada que a mulher que aborta tomou livremente.
Compadeço-me dessas mulheres. E, como também me compadeço das vidas que foram e são mortas dentro do ventre materno, votei “NÃO”.
Penso que é complicado sair deste quadro límpido. Votar “NÃO” era proteger a mãe e o filho(a). Votar “SIM” é instaurar legalmente um pseudo-direito.
Se tivessemos votado uma alteração ao quadro penal para o crime de aborto receber penas diferentes, ou mais leves, eu teria votado SIM: uma mãe que aborta não precisa das barras metálicas para sofrer na pele o peso de um enorme crime que brada aos céus.
Se calhar, ao dizeres que não comentei o post, referias-te à notícia acerca do número de abortos… Eu escusava de comentar: mesmo que a actual lei iníqua reduzisse o número de abortos para um aborto por ano, eu teria sempre votado como votei.
Em ética, as coisas não se avaliam de forma quantitativa, mas sim qualitativa. Há aquela frase: “Quem salva um homem salva toda a humanidade”. É assim que penso. Uma lei que legitima uma liberdade para matar, que a mulher não possui, porque não tem essa liberdade, é uma lei iníqua e desumana, mesmo que reduzisse o número de abortos para um.
Um abraço
1 de Dezembro, 2007 às 13:09
A anterior lei, ao criminalizar o aborto (como ele é, um crime), não eliminava o aborto clandestino.
Como a lei contra a violação e os assaltos sexuais não elimina estes crimes.
Como a lei contra o assalto à propriedade privada não elimina estes crimes.
Preciso de continuar?
Quando a sociedade deixa de ver uma conduta ilícita como ela é, todos perdemos com isso.
Além disto, nunca posso concordar com a votação de princípios éticos inegociáveis. O direito a viver é o primeiro direito de todos.
O número de abortos reduziu?
Não sei. Talvez. Os números são manipuláveis.
Vamos assumir, como exercício, que de facto tal número reduziu.
E então?
Os seres humanos abortados após o referendo de Fevereiro clamam aos céus, bradam pelo crime que lhes foi cometido, sob a alçada (des)protectora do Estado, que deveria ser o garante da protecção às suas vidas inocentes.
E isso é miserável, é sub-humano…
Um abraço,
1 de Dezembro, 2007 às 23:41
Bernardo
eu também sou contra o aborto, mas ele existe, independentemente da minha vontade ou da minha opinião. Se for possível minorar as sequelas de uma mãe que aborta, conservando-a para os filhos que lá tem em casa, antes assim, com assistência médica. Ter filhos é muito mais do que uma queca entre dois jovens pá. Todas as crianças têm direito a ser desejadas, terem uma família que as ame, pelo menos. Não podem, não devem, nascer crianças indesejadas ou para serem abandonadas e maltratadas. É este o meu ponto.
abraços
2 de Dezembro, 2007 às 0:10
Já estou “fora de prazo” para beneficiar da lei, mas em nome da jovem angustiada e torturada que fui parabéns e obrigada por este texto.
2 de Dezembro, 2007 às 19:22
Caríssimos,
O aborto é de facto um evento terrível. Seja espontaneo ou intencional. O que se encerra no acontecimento em si independe absolutamente da nossa vontade. Bem como das nossas palavras ou da nossa pomposa troca de argumentos. Mas acontece uma coisa terrível nos dias que correm: Assomamo-nos do poder de responsabilidade colectiva, assumimos as dores globais e (pasme-se) importamo-nos. Não fosse assim, circunscrevesse-se a nossa banal existência à periferia do nosso umbigo e todos os problemas deixariam de gerar a mínima controvérsia.
Tentando desembrulhar um pouco os novelos desta coisa esquisita chamada ego:
1) Perante um problema factual podemos: a) tentar minimiza-lo (idealmente resolve-lo); b) desmultiplica-lo em cem e fingir que resolvemos os de menor calibre, num incrivel exercicio de ilusão global.
2) O aborto é, pelo menos parcialmente, um problema de tomates. Serve a deselegância o propósito intencional de dizer que a sua solução (utópica) passa pela potencial posse dos ditos apêndices.
3)Se se abordam dores, sofrimentos, perdas e conceitos quejandos nunca deve perder-se de vista o conceito físico daquele senhor despenteado, uma vez que parece que nos tempos que correm ninguém vive sem o seu “citómetro” pessoal: Relatividade. Não é uma teoria, não interessa a matemática, interessa saber que quando as coisas não são A ou B se deve poder perceber se A é melhor, pior ou igual a B
4) A propósito de 3): Se aborto despenalizado é A e Penalizado é B. Se ambos comportam questões éticas, morais e factuais, e se B, isoladamente as comporta a todas…
5) A propósito de 4) e 3): Que problema deixará de facto existir se tudo voltar à fórmula antiga? Acaso deixará de acontecer o terrível evento? Diminuirá o número? O sofrimento de cada vida isolada? O sofrimento da mãe? Do feto? Que raio de alívio proporcionará uma imposição legal que (na mais terna e condescendente das perspectivas) deixará tudo na mesma?
6) Será, só por acaso, assim tão errado, por exemplo, proporcionar retrovirais aos doentes HIV + que tenham adquirido a condição á custa de comportamentos desviantes? Oferecer metadona para substituição de opióides? Assistir medicamente os que adoecem à custa do seu comportamente anunciado errado? E simultaneamente fazer pagar pelo tratamento aqueles que sofrem de condições crónicas? Simplificando: oferecer ao agarrado e cobrar ao diabético? Ou estou assim tão errado ao viver esta promiscuidade que assenta enum sistema nacional de saúde cego para tudo o que vem antes da doença e que visa simplesmente a cura? É que as coisas podem ficar mesmo complicadas se nos começarmos a entreter e a brincar às consciências morais.. Vejamos:
a) se se tratam preferencialmente doenças das quais o sofredor não tem culpa, os diversos critérios de triagem hospitalar deverão com urgência rever os seus items,pois qualquer gripe adquirida por contágio inadvertido se torna rápidamente prioritária ao enfarte em curso do obeso comilão e fumador ( zero pecados capitais versus um e meio)
b)90 % da medicina será paga (espero que o Sr ministro não leia este blogue assim com tanta atenção) a partir do momento em que é essa a percentagem de doença imputável à vítima.
c)Depressa teremos o país com menor taxa de toxicodependentes, HIV e Tuberculose multiresistente. Por um lado este é um país com muita gripe, constipação e unha encravada, por outro é um país com poucos médicos.. logo, o fim da lista de prioridades será gradualmente eliminado por falta de assistência.. Que solução brilhante..
d) O bronquitico crónico fumador morrerá em 53º lugar da fila de espera da urgência, afogado em escarro. Culpa dele que bem o avisaram que fumar mata e faz coisas esquisitas aos espermatozoides. Que culpa tem a senhora Maria Anunciação que contraiu uma infecção urinária na retrete da escola primária e as 51 crianças com vómitos porque os ovos da cantina escolar estavam estragados? Para trás senhor fumador, que bem o avisaram! O Sr director da dita escola, que vem inconsciente por ter sido sovado pelos pais dos garotos é o 54º da fila. Bem feito! Sorte a dele terem faltado 15 putos hoje e o sr fumador já ter morrido. Num ápice 53º.. há dias de sorte!
É de facto um exercicio bem divertido pensar na medicina alicerçada no bom costume e na consciencia global! Serve para nos colocar no sitio certo.
Outro conceito médico: Em situação de catástrofe há que saber deixar morrer quem tem menos hipótese de sobrevivencia (1), quem terá, presumivelmente menos qualidade de vida posterior (2), discriminar pela idade (3).. e a lista continua por aí abaixo. Chega de brincadeiras, ou escreveria que teríamos que saber COISAS sobre os politraumatizados por forma a listá-los.. mas o tom irónico já me cansa.. Ou teria que tecer considerações maluquinhas sobre como a grávida em lista de espera para interrupção voluntária de gravidez se tornaria prioritária na lista da catastrofe no sentido de a manter vida os restantes meses gestacionais suficientes para trazer à vida a criança indesejada. claro está que o meu frenesim parvo e idiota quase me faria escrever que, nascida a criança a senhora seria devolvida ao local da catástrofe para, de novo, se sujeitar a triagem, que isto de ser sexualmente irresponsável e putativa homicida tem muito que se lhe diga.. Mas não escreverei nada disso.
Uff. Estou cansado. Ás vezes é preciso agir. É uma coisa chata inerente à condição social que esta merda desta sociedade nos impõe. E para agir, enfim, pressupõe-se decisão e coragem.
Quem é que inventou esta coisa do mal menor? Está mesmo mal pensado não está? Porque é irrefutável que todo o mal é mau (Lili Caneças like), mas é chato que algum seja, vá lá, piorzinho…
Não vou cruzar os braços
Cumprimentos cordiais e sinceros aos colegas don vito e Bernardo, obrigado pelo convite
5 de Dezembro, 2007 às 15:20
Don Vito,
As minhas desculpas pela demora na resposta. Eu costumo responder sempre. Se não respondo, agradeço que me puxem as orelhas, porque posso estar esquecido.
«eu também sou contra o aborto, mas ele existe, independentemente da minha vontade ou da minha opinião.»
OK.
Mas votar “SIM” no referendo passado carregava o enorme peso da legitimação da opção da mulher em abortar. Tal opção não é legítima. Por isso, quem está contra o aborto como direito da mulher deveria ter votado “NÃO”. Infelizmente, a manipulação da linguagem permitiu que um grande número de opositores do aborto acabassem por tragicamente votar “SIM”.
No entanto, andam por aí uns pseudo-intelectuais a dizer que a mulher tem direito a abortar. Esse debate, o ético, é que é interessante. Afinal, a mulher pode ou não dispor da vida do seu filho?
Temos que voltar à base, à ética. A ética é o ponto de partida. De bons princípios éticos, podem nascer boas ou más leis, eficazes ou ineficazes. De maus princípios éticos, só nasce merda.
«Se for possível minorar as sequelas de uma mãe que aborta, conservando-a para os filhos que lá tem em casa, antes assim, com assistência médica.»
Esse raciocínio está viciado, meu caro.
Um contra-exemplo: um jovem decide assaltar um banco. É uma operação arriscada, arrisca-se a levar um tiro. A solução será dar-lhe escolta policial? Distribuir à borla coletes à prova de bala para os delinquentes?
Caramba: matar é um crime! Toda e qualquer mãe que aborta mata, e isso é um crime muito grave. Isto é que importa!
No entanto, o crime do aborto tem sempre duas vítimas:
a) a vítima física: a vida humana que é destruída sem apelo nem agravo
b) a vitima psicológica: a mãe; é muito complicado que uma mulher não fique psicologicamente arruinada com um aborto; afinal, é uma espécie de suicídio psicológico: a mulher nega-se a si mesma, enquanto mulher, ao matar o seu filho dentro do ventre
Mas o facto de a mulher ser uma vítima consequente do crime de aborto não apaga o facto de que ela é, afinal, a autora (mesmo que apenas moral) do crime. É certo que há muitas questões importantes, como a pressão da família para abortar, a pressão do patrão, e outras coisas do género. Estas situações certamente que atenuam a culpa da mulher que aborta, mas a objectividade do crime permanece a mesma. Se a mulher decide abortar, mesmo que pressionada (vamos supor que não é o mesmo que forçada), a decisão errada é sua.
Se a mulher é forçada a abortar, de forma a que a sua liberdade é negada, então o crime não é, claramente, imputável à mãe, mas sim a quem a força a tal acto contra-natura.
«Ter filhos é muito mais do que uma queca entre dois jovens pá.»
Quem diz que é apenas isso?
«Todas as crianças têm direito a ser desejadas, terem uma família que as ame, pelo menos.»
Claro que têm esse direito. Só que esse direito não implica uma obrigação de morrer quando o direito não é cumprido.
O teu argumento está equivocado: é como dizer assim… Todos temos o direito a comida, a uma profissão, a uma casa. Quando uma ou várias destas falham, temos que ser mortos?
«Não podem, não devem, nascer crianças indesejadas ou para serem abandonadas e maltratadas. É este o meu ponto.»
Eu percebo. Isso é o mundo ideal, o mundo que todos procuramos. O que eu te pergunto é algo de muito concreto e prático, é isto: quando uma criança é indesejada deve ser morta?
Um abraço,
6 de Dezembro, 2007 às 11:12
Bernardo,
não vou voltar á discussão do referendo e os comentários aos posts também não servem para discussões absurdas (acho eu) nem argumentos irresponsáveis. Ninguém, nem sequer a igreja católica (vide declarações do cardial patriarca) considera o aborto um assassinato de crianças por razões que me dispenso de explicar e que todos sabem.
Colocando essa irresponsabilidade argumentativa de lado, quero-te dizer para teres cuidado com os argumentos reversíveis:
presumo que não defendas a pena de morte. e na pena de morte (principalmente em homicídios sucessivos) há quem a defenda com o argumento popular acaba-se o mal e a peçonha. e depois outro argumento reversivel: ao dizeres que se devia votar NÃO estás a legitimar o aborto clandestino e a exposição mais fácil das mulheres a todo o tipo de consequencias, incluindo a própria morte. e eu não estou a dizer que tu queres que essas mulheres morram. portanto, seriedade nos argumento é o mínimo que se pode exigir.
abraço
6 de Dezembro, 2007 às 17:40
Oi Don Vito!
;=)
(isto sou eu a tentar dar um tom mais amigável e descontraído a esta salutar troca de ideias)
«não vou voltar á discussão do referendo e os comentários aos posts também não servem para discussões absurdas (acho eu) nem argumentos irresponsáveis.»
Eu também acho que não.
Procuro evitá-los, os tais argumentos irresponsáveis. Aliás, um argumento irresponsável será, sobretudo, um mau argumento. Um bom argumento, ou seja, válido, nunca é irresponsável. Pelo contrário, é responsável.
Por isso, vamos alterar a frase: são de evitar os maus argumentos.
«Ninguém, nem sequer a igreja católica (vide declarações do cardial patriarca) considera o aborto um assassinato de crianças por razões que me dispenso de explicar e que todos sabem.»
Sinceramente, não percebo. O aborto só se distingue do infanticídio num único aspecto: o primeiro é um crime contra a vida humana intra-uterina e o segundo é um crime contra a vida humana extra-uterina.
Tu dás um valor ético diferente aos dois casos, mas eu não vejo base ética para isso. Ganha-se valor com a idade, é? Um feto com 5 semanas vale menos, eticamente, que uma criança nascida?
Percebes que essa argumentação é “question begging?”, que exige uma boa e sólida argumentação?
Que não vale de nada escrever que “dispensas explicar” e que “todos sabem”, quando isso é falso. Eu não entendo essas generalizações. A Igreja dá um valor ético igual ao embrião, ao feto, ao ser humano nascido. O valor ético é o mesmo. Logo, matar uma vida humana, para a Igreja, é igualmente mau, objectivamente, seja com tal vida dentro do útero, seja com tal vida fora do útero. No entanto, o conceito subjectivo da culpa deve ser avaliado de acordo com as circunstâncias.
Já agora, é útil ler o que diz a Igreja sobre isso: falemos de textos concretos:
http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19741118_declaration-abortion_po.html
Mas insisto num ponto central: não é apenas a Igreja que o vê assim: o debate ético sobre o aborto apresenta do lado do “contra” muita gente que não professa nenhuma religião e argumenta tal e qual como eu argumento.
Porque será que se confunde “objectividade” de um crime com a “subjectividade” da sua culpa? Matar um ser humano é sempre um crime objectivo. A culpa, essa sim, será subjectiva e dependente das circunstâncias. Por essa razão, qualquer sistema penal prevê penas diferentes (ou ausência de pena) de acordo com as circunstâncias nas quais se comete um crime.
Mas eu queria investigar mais profundamente as razões que te fazem olhar para a morte provocada da vida humana intra-uterina como algo menos grave do que matar uma criança recém-nascida. É o eterno dilema da fronteira:
a) é lícito matar após a fertilização: porque se mata um ser humano (o ponto que defendo)
b) será eventualmente lícito matar até certa idade, e ilícito depois? se sim, então tens que argumentar qual será essa fronteira da eticidade do aborto: com que idade? e baseado em que argumento?
Se ficas do lado b), tens que te defender, tens que explicar onde está a fronteira. Não basta tentar fugir à questão, dizendo que “todos sabem” que há uma diferença. Qual é essa diferença? Eu vejo uma diferença prática e material (intra-uterina, extra-uterina), mas sem qualquer peso ético. O que muda, em termos éticos, com o estar do lado de lá ou do lado de cá da barreira uterina?
«Colocando essa irresponsabilidade argumentativa de lado, quero-te dizer para teres cuidado com os argumentos reversíveis:
presumo que não defendas a pena de morte.»
Não, como ela é entendida, não a defendo.
Defendo, teoricamente, tal pena se fosse o único (e sublinho “único” várias vezes ao ponto de rasgar a folha de papel) modo de evitar a morte de inocentes. Ou seja, se no limite, a decisão que um certo grupo toma em matar um potencial agressor for a única forma de legítima defesa contra esse agressor. É também o que diz a Igreja (Evangelium Vitae, de João Paulo II: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_25031995_evangelium-vitae_po.html).
«e na pena de morte (principalmente em homicídios sucessivos) há quem a defenda com o argumento popular acaba-se o mal e a peçonha.»
Nota que são coisas diferentes: a pena de morte diz respeito a um eventual agressor mal-intencionado, e reflecte-se acerca do alcance da legítima defesa. A Igreja vê que tal defesa (usar a pena de morte) só é legítima se for o único recurso para evitar a morte de inocentes, neutralizando um agressor. João Paulo II frisa que tais casos, nos nossos tempos, com a sofisticação das nossas cadeias, tornou-se uma necessidade quase obsoleta. Não é preciso matar um agressor para o neutralizar como ameaça.
O pobre do embrião, do feto, não representam qualquer ameaça eticamente relevante. Abortar nunca é “legítima defesa”. Bota “nunca” nisso…
«e depois outro argumento reversivel: ao dizeres que se devia votar NÃO estás a legitimar o aborto clandestino e a exposição mais fácil das mulheres a todo o tipo de consequencias, incluindo a própria morte.»
Estou, como? Serei responsável pelos actos dessas mulheres, que morrem às mãos de parteiras de vão-de-escada? Acaso concordo eu com tais decisões? Acaso concordo eu com os actos de tais “parteiras”?
A questão ética é brutalmente simples, e pensa-se assim: se queremos evitar um fenómeno mau (o aborto, em absoluto), devemos encarar as possibilidades. Imagina que há uma possibilidade eventualmente eficaz (legalizar), mas que é eticamente má (o caso). Essa possibilidade deve ser imediatamente descartada. Mas há outras possibilidades: apoios do Estado, maternidades, casas de apoio a mães adolescentes, subsídios para a compra de alimentos e roupas para bébés, leis que protejam profissionalmente as mulheres que engravidam, etc, etc, etc… Milhões de etc, e todos eles perfeitamente éticos. OK?
Per- fei - tamente éticos.
Já o disse: se a actual lei iníqua reduzisse o número de abortos a um aborto por ano, eu continuaria a opor-me a ela. Um bom fim não justifica um mau meio. Isto é elementar bom senso.
«portanto, seriedade nos argumento é o mínimo que se pode exigir.»
Caramba, se achas que não estou a ser sério, porque não me mandas dar uma volta? Achas que estou a ser falacioso? que estou a argumentar mal? então explica-te. Especifica as falácias, os erros argumentativos. Não basta dizer que eu não estou a argumentar seriamente: há que ser específico: dar contra-exemplos. Procurar demonstrar o suposto absurdo dos meus comentários com contra-argumentação. Com provas em contrário, com as habituais ferramentas do debate e da argumentação.
Um abraço!
6 de Dezembro, 2007 às 17:43
Bolas, escrevi uma asneira.
Onde está:
“a) é lícito matar após a fertilização: porque se mata um ser humano (o ponto que defendo)”
leia-se:
“a) é ilícito matar após a fertilização: porque se mata um ser humano (o ponto que defendo)”
obviamente… aquele “i”zinho faz falta!