A direita das piadas e a esquerda das tiradas

Quando se trata de diagnosticar o país e os seus problemas a direita das piadas é quase tão má como a esquerda das tiradas. São todos muito cultos, leram muitos livros, não se coibem, até,  de citar títulos, autores e doutrinadores estrangeiros, a propósito de qualquer frioleira do quotidiano, mas não sabem nada do que se passa no país. País, aliás, que desprezam profundamente e cujas referências são meramente instrumentais aos seus relevantes posicionamentos ideológicos.

Vem isto a propósito da discussão em curso sobre a política de saúde do governo, alimentada por uma direita que advoga o desperdício dos escassos recursos públicos  e por uma esquerda que alimenta o conservadorismo assistencial em vez da vanguarda de cuidados médicos . São ambas muito portuguesas - avessas à mudança!

A política de saúde do actual governo está, por isso, é preciso assinalá-lo, no caminho certo! Procura por um lado, eliminar os desperdícios e os custos exagerados de um sistema caríssimo como poucos na europa, que já hoje absorve grande parte da riqueza nacional e que, a curto prazo, se não for garantida a sua sustentabilidade, não conseguirá servir dignamente nenhum doente em Portugal; Por outro lado, justamente, procura eliminar a falsa ideia (que fez má escola neste país) de que a segurança de todos nós é maior se cada um tiver, um médico, um polícia, um advogado ou um juiz à porta de casa. Não, não é assim e é preciso dizê-lo com toda a clareza.

Em primeiro lugar, o governo não está a fechar urgências (a meia dúzia delas que entretanto foi re-adaptada para cuidados continuados não tem expressão no contexto de atendimento nacional, algumas delas eram mantidas apenas por razões meramente localistas). O que nós vemos por aí a abrir telejornais são manifestações contra encerramentos de SAPs entre as 24 horas e as 08 da manhã. E, convém dizê-lo, encerram apenas aqueles cuja utilização e frequência é de menos de dez utentes por noite, na maior parte deles, serviços de atendimento permanente que têm uma média anual muito inferior a esta,   um utente ou menos por noite é um número que impera em muitas dezenas de SAPs onde hoje se clama pela sua manutenção e funcionamento. Isto é uma vergonha nacional, um roubo miserável ao bolso dos contribuintes que deviam alimentar com os seus impostos serviços de públicos úteis e não excentricidades locais e representa ainda uma injustiça assinalável para milhares e milhares de pessoas que vivem vidas difíceis nos grandes centros urbanos e suas periferias e que estão hoje privados de médicos de família porque não os há, ou porque  os que existem estão a fazer atendimento permanente onde não há doentes.

Para garantir atendimento a um, dois ou três utentes por noite, o estado tem que disponibilizar dois médicos, dois enfermeiros, pessoal administrativo, vigilância, limpeza e as instalações propriamente ditas. Para além disso os médicos que fazem a noite para atender um, dois, ou três doentes no dia seguinte deixam de atender 40 ou 60 doentes nas suas consultas familiares. 

Para acabar, e bem, com tudo isto o governo criou as unidades de saúde familiar com consultas programadas das 08 às 22h, ou mesmo, nos casos em que o número do utentes assim o justifique, das 08 às 24 h, e consultas no próprio dia, independentemente do médico de família deste ou daquele utente estar nesse dia de serviço. Com acesso informatizado à ficha clínica do doente, as USF permitem cuidados de saúde dignas a todos os cidadãos, o que hoje não acontece na generalidade dos SAPs deste país.

 Esta política de saúde do governo pode ser, obviamente, contestada. Deve sê-lo com fundamento, com substância e não com ignorância. Era isso que eu gostava de ver.

Noutro post irei à restruturação das urgências, das propriamente ditas.   

2 Comentários a “A direita das piadas e a esquerda das tiradas”

  1. Nicholas Edward diz:

    Ver os telejornais, nos dias que correm, é uma experiência Dantesca.
    Ontem contestava-se o facto de fechar um SAP quando a urgência mais proxima distava 15 intermináveis Kms. Entrevistou-se uma utente, ruborizada e ecolerizada, muito provavelmente estimulada pelos incentivos daqueles que têm responsabilidades que nunca saberão, que dizia ter-se inscrito para a urgência e agora estar na sala de espera aguardando uma “consulta aberta”. “E agora vão conseguir resolver o meu problema urgente” - perguntava incessantemente.

    É este o nível de dicussão que queremos ter? Alimentar este tipo de ignorância popularista? Brincar, de facto, com as populações dizendo-lhes o que elas querem ouvir ainda que não seja em seu benificio? Estas perguntas faço eu, mas não incessantemente, que me parece muito cansativo.

    Caro don vito, mas nem tudo são rosas, e depois da discussão do obvio muito sobra para conversar, sobre o que se pode fazer ou devia ter feito diferente.
    Abraço

  2. Bada Bing! » Blog Archive » Atchiiiiim! diz:

    [...] bar já foram discutidas algumas das considerações da clientela, nomeadamente aqui e aqui pelo que não fará muito sentido uma repetição exaustiva daquela que é a opinião dos [...]

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