Meu amigo Judas?
É mais um exemplo paradigmático. Se não fosse o aviso de um amigo (obrigado, Henrique Leitão!), eu não teria sabido disto.
Saiu a 1 de Dezembro, no New York Times, um artigo de April D. DeConick que dá conta de erros graves presentes no trabalho efectuado pela National Geographic, em 2006, sobre o dito “Evangelho de Judas”.
Todo este assunto é um imenso novelo de erros polemizados e difundidos para provocar sensação mediática… O tratamento da questão tem sido sistematicamente mal feito, em virtude do desconhecimento dos jornalistas que o abordam.
Judas não escreveu este texto
O texto data de uns poucos séculos depois de Cristo e de Judas. Este último estaria já reduzido a ossadas quando uma comunidade gnóstica o escreveu e usou.
Este não é um texto cristão
Pode-se afirmar, não sem alguma cautela, que os textos gnósticos são de “inspiração” cristã. Mas apenas porque tais textos usam a figura de Cristo para a colocarem a afirmar coisas que nunca afirmou. Para dominar e compreender o universo doutrinal dos gnósticos, é preciso todo um vocabulário complexo e específico destas doutrinas: “pleroma”, “demiurgo”, “arconte”, etc… O gnosticismo é uma religião totalmente diferente da de Cristo. Mostra-nos um mundo mau, criação de um maligno demiurgo. Ensina-nos que as almas estão presas aos grilhões desta vida maligna, e que só a morte é a libertação da alma em direcção ao Pleroma. O gnosticismo demoniza a existência terrena. Despreza-a. Demoniza a procriação, demoniza a natureza, demoniza a vida humana em todos os seus aspectos: é uma radical “fuga espiritual”, mas equivocada porque baseada na ideia errada de que a Criação é obra demoníaca. Quando os gnósticos escreveram textos nos quais colocavam na boca de Cristo frases que Ele nunca poderia ter proferido, podemos falar tangencialmente de uma religião de inspiração cristã, mas nunca de uma religião cristã. Porque Cristo não ensinou a doutrina gnóstica (nem sequer existia no Seu tempo).
O texto não foi bem interpretado
Esta é a parte que constitui alguma novidade, e que é abordada pelo citado artigo no New York Times. Afinal, parece que a tradução “oficial” estava mal feita, e que se saltou precipitadamente para a conclusão de que Judas seria o “bom da fita”. Uma das confusões mais graves da equipa da National Geographic seria a de não entender que, em grego, “daimon” tem uma conotação negativa, e que não pode ser traduzido para “espírito”, pois para tal termo existe o grego “pneuma”. Ao que parece, o dito “Evangelho de Judas”, afinal, refere-se a Judas como um demónio!
Eventuais louvores a Judas não são estranhos neste contexto
Mesmo vendo Judas como um “daimon”, como um colaborador do Mal, não é de estranhar que o grupo gnóstico cainita que escreveu este texto o visse, de alguma forma, como uma figura essencial no plano salvífico gnóstico. É que este grupo gnóstico tinha a particularidade de ver os “maus da fita”, os agentes do Mal, como figuras-chave na vitória do Bem, porque as via como necessárias e indispensáveis na grande luta cósmica gnóstica entre as duas forças. O epíteto “cainita” atribuído a este grupo vem do facto de que tinham Caim em alta estima, bem como outras figuras que o judaísmo e o cristianismo consideram como más. Para o cristianismo, o Mal não é necessário nem indispensável. O Mal, no cristianismo, é uma consequência indesejada por Deus da liberdade da Criação (essa sim, desejada por Deus).
Por tudo isto, é necessária muita precaução ao analisar um texto tão antigo como este. Trata-se de uma genuína peça arqueológica de valor inestimável. Diz-nos pouco sobre o cristianismo (o de tradição apostólica, o que deriva dos ensinamentos de Cristo), mas diz-nos muito sobre os grupos heréticos gnósticos que abundavam nos primeiros séculos da nossa era, fruto do ímpeto que muitos sentiram em fazer uma fusão sincrética entre um neo-platonismo pouco consistente e uma interpretação deturpada do cristianismo emergente, inserindo ainda no caldeirão gnóstico muitas outras crenças antigas do Médio Oriente.
Vejamos um excerto do artigo:
The shocker: Judas didn’t betray Jesus. Instead, Jesus asked Judas, his most trusted and beloved disciple, to hand him over to be killed. Judas’s reward? Ascent to heaven and exaltation above the other disciples.
It was a great story. Unfortunately, after re-translating the society’s transcription of the Coptic text, I have found that the actual meaning is vastly different. While National Geographic’s translation supported the provocative interpretation of Judas as a hero, a more careful reading makes clear that Judas is not only no hero, he is a demon.
Several of the translation choices made by the society’s scholars fall well outside the commonly accepted practices in the field. For example, in one instance the National Geographic transcription refers to Judas as a “daimon,” which the society’s experts have translated as “spirit.” Actually, the universally accepted word for “spirit” is “pneuma ” — in Gnostic literature “daimon” is always taken to mean “demon.”
Vale a pena ler até ao fim. Porque, com grande probabilidade, não vai encontrar este tema tratado nos media nacionais.
É pena que, como sempre, o desmascarar das burlas seja silenciado nos media. O que vende jornais e revistas, o que preenche aberturas de noticiários, é o revisionismo anti-cristão. Informar que a National Geographic errou ou mentiu, isso já não tem interesse nenhum…
O uso do termo “mentiu” não me parece excessivo: duvido que os tradutores que fizeram parte da equipa não soubessem grego ou copta. São as suas ferramentas de trabalho. Seria como imaginar que um engenheiro civil, encarregue de uma obra de grande envergadura, não soubesse trigonometria elementar…
5 de Dezembro, 2007 às 19:02
Sobre este tema recomendo o brilhante conto “Três versões de Judas”, de Jorge Luís Borges, na obra “Ficções” de 1944 (ed. portuguesa da Teorema, 1998). É muito bonito!
5 de Dezembro, 2007 às 20:09
Obrigado pela dica!
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