Para mais tarde recordar
O cheiro é, definitivamente, algo muito menosprezado. Ao contrário da imagem, em que há mil maneiras de as captar, de as guardar, para as utilizar quando necessário for - tudo pode ser fotografado, filmado, captado e guardado. Ao limite da vulgarização.
Com o cheiro não é assim. Talvez por os haver, também, tão desagradáveis. Contamos apenas com as nossas memórias olfactivas. Cheiros há que me recordam momentos inacreditavelmente longínquos e efémeros. E, no entanto, são momentos, talvez pelo desprevenido que me apanham - aparecem em qualquer altura, indiscritivelmente agradáveis.
Tudo para dizer que nunca, como agora, senti tanto a falta de uma máquina de guardar cheiros. Para captar o perfume do meu menino de três meses - faz amanhã. O cheiro a bebé é algo de demasiado belo para ser chamado de belo, palavra que se aplica a coisas demasiado pouco belas.
O cheiro do meu filho quando bebé. Numa garrafinha - para eu poder usar enquanto o vejo crescer. Eis o meu desejo. Não que me desagrade o medrar (não o das borbulhas na cara, mas aquilo que diz o povo elas significam - “medrou”), pelo contrário, orgulho-me dele. Mas o cheiro do meu filho bebé é algo de único, que eu gostaria de poder guardar.
Para mais tarde recordar e lhe poder dizer “vês* filho, eras assim”.
* leia-se: “cheiras”, enfim, mais uma prova do que atrás disse - ao cheiro não se dá o devido valor.

8 de Janeiro, 2008 às 13:57
Malta:Temos um papá Süskind a Bordo!!
Que belo texto. Que se Afixe em todos os lares! (Bem, hoje atinjo níveis e humor que me catapultarão rapidamente para a noite de ravelhão do 5º canal!) (e por falar nisso maltosa: Bom Ano) (como se chama a doença que nos faz recorrer exaustivamente ao mesmo sentido de humor das cavernas e ser repetitivo em todos os assuntos? Pintice da costa crónica? Albertice? (cá está, mais uma evidência de mau gosto.. acho que afinal é só parvoíce mesmo) (de qualquer forma: Bom ano!)
8 de Janeiro, 2008 às 14:59
melhor do que manter o cheiro é tentar cheiros novos, cheiram todos bem, mas diferentemente
8 de Janeiro, 2008 às 15:03
Cá está, continuando um post bem idiotazinho que recentemente afixei por aí: Não ter filhos (também) é : roer-me de inveja destes mafiosos
8 de Janeiro, 2008 às 15:07
papá Süskind. Lembrei-me dessa. E até pensei duas vezes em colocar este post só por causa disso. Não me agradam os métodos do rapazito.
8 de Janeiro, 2008 às 17:24
mas eu não disse papá rapazito (jean baptiste)
.. Bom ano afixe!!
8 de Janeiro, 2008 às 17:33
é verdade. não disseste. Mas pode-se confundir o criador com a criatura. Feliz Natal, Nicholas.
8 de Janeiro, 2008 às 17:37
No fundo não passo de um grande invejoso…
Abraço.