pálida
Death in the sickroom, Edvard Munch
voltei de lá. belisquei-me com cuidado ao decidir reentrar - ainda me lembrava de como tinha sido havia pouco mais de dez anos. o cheiro da morte. da espera da morte. agora já não. havia de estar toda a gente a rir. havia de ter sido só um sonho mau. dez anos. que seria feito do meu pai, fígado marinado, morto por certo. a minha mãe, agarrada ao caixão, sem vida própria, feliz por ser a escolhida pelo casamento, entre as teúdas e manteúdas, pobres delas, herança em vida, deserdadas na morte, não como ela. ela era. bati à porta. ao de leve. dez anos. morto e enterrado. já tinha passado tempo que chegasse para descerem aquela podridão às entranhas fecundas da terra. para que floresça em malmequeres. bati. nada. bati outra vez. passos. recuei. abriu-se a porta para a escuridão. OU PARA A LUZ. entra, minha filha, olha a vírgula, outra, entra. onde raios te meteste. temos mais que fazer. discurso directo, coisa difícil de ler, ainda para mais num blog, que se quer coisa leve e divertida. vírgulas que avisam que foram e que são.
ENTREI.
carpideiras em cada canto. as mesmas de há dez anos. choramos por dinheiros. xis cêntimos por lágrima. euros por gritos de pesar. o mesmo cheiro nauseabundo. a morte cheira sempre igual. o caixão. ao canto. branco de pesar. que quando o pesar é intenso o esquife quer-se branco e de meio metro. ou ao contrário. será melhor. reformulo. que quando o esquife é branco e de meio metro o pesar quer-se intenso.
olhei para o caixão.
ENTREI.
lá dentro, de onde tinha fugido, havia dez anos, estava eu. morta por enterrar. anã ou bebé. não sei precisar. mas pequena. demasiado pequena para morrer. percebi, enfim, que havia fugido da minha própria morte. e deixado aquelas pessoas paradas no tempo. há espera do seu morto.
POR CHORAR.
bADA bING!

29 de Dezembro, 2007 às 0:58
Não tendo acedido a todas as diemesões do teu texto, caro afixe, saúdo a presumível ficção no bada bing.
E gostei. Gostei mesmo muito, na verdade, a não ser que as dimensões não acedidas me turvem a compreensão do que li.
Obrigado pela partilha.
Gosto sempre de Munch, e gosto, ainda mais, com se percebe, de vírgulas.
Abraço
29 de Dezembro, 2007 às 1:00
bem haja.
não turvam, por certo, que o texto, escrito em 20 minutos, é tão meu como teu. ainda agora tento alcançá-lo. e isso é que me dá gosto. esta espécie de vómito por decifrar.
29 de Dezembro, 2007 às 1:33
Vómito por decifrar ou vómito por digerir, mas aí seria uma redundância.
Eu não sou muito amigo de abstraccionismos que não me toquem. O teu texto é sensível, e tem aquela pontinha de inteligibilidade que faz da busca (a tal procura da cifra) uma delicia.. um pouco como o Muhlolland drive, do David Lynch: Nunca compreenderei (protejo o ego achando que não há solução possível) e nunca deixarei de adorar.
29 de Dezembro, 2007 às 3:22
Avariou-se a tecla das maiúsculas, ó cromáceo?
E boas entradas se até lá não nos virmos!
29 de Dezembro, 2007 às 12:38
E a ti, avariou-se-te o telemóvel? Liguei-te ontem.
boas entradas tb para ti e para o teu pessoal.