As voltas da vida
Segunda-feira, 19 de Novembro, 2007“Que grande cocó” e “Que grande arroto” são as frases que, no último mês, com maior prazer tenho proferido.
“Que grande cocó” e “Que grande arroto” são as frases que, no último mês, com maior prazer tenho proferido.
Em 1990 estive em Bruxelas a fazer um estágio no PE. Apesar de cinzenta e chuvosa, adorei a cidade. Sobretudo, porque numa capital de um milhão de habitantes, quase nunca encontrei um belga. Hoje os jornais anunciam vinte mil numa manifestação. As coisas estão a mudar.
Durão Barroso vem agora, blá, blá, dizer que foi enganado, blá, blá, sobre a existência, blá, blá, de armas de destruição no Iraque. Barroso foi um governante mediocre, calculista e deslumbrado, acrescento agora, também cobarde. Todos nós, de facto, sabíamos que não havia armas de destruição no Iraque. O que justificou a invasão foi a luta contra o mal. A luta contra a tirania, o terrorismo e a barbárie. Não é condição obrigatória a existência de armas de destruição para encetar e desenvolver essa luta. Barroso com esta atitude melíflua é mais um a fragilizá-la. Está a correr mal no Iraque. É certo! Mas isso é apenas motivo de reflexão, não de capitulação.
qwert.
terqw.
ewrtq.
palavras.
apalsarv.
Um teclado.
27 letras.
Qwertyuiopasdfghjklçzxcvbnm.
Mnbvcxzçlkjhgfdsapoiuytrewq.
O resto, !”#$%&/()=;:^`´*¨¨?; são bengalas de fraco escrevinhador.
Pequenas são as probabilidades de, batendo insistentemente nas teclas, não se conjugar uma palavra. E, de forma insistente, uma frase. E, daí, um texto.
Partindo deste pressuposto, a coisa afigura-se fácil.
O título? Deste para o texto ou do texto para este?
À vontade do freguês, que é como quem diz, do batedor de teclas.
Era uma vez…
Há quem diga que um gato maltês.
Outros preferem coisas sórdidas entre uma pálida donzela e meia dúzia mais um de nanicos.
Tente-se…
Era uma vez…
Sem bengalas.
Era uma promessa que lhe tinha feito
(arranja-me aí umas vírgulas)
Era uma promessa que lhe tinha feito. Havia de escrever um livro. Chegou a pôr um alarme no telemóvel: 2ª feira, 15 horas, avisar 10 minutos antes (era um nokia): “Escrever”. Assim mesmo. “Escrever”. Como se estas coisas de escrever pudessem ser programadas.
Levanta-se pela manhã, toma um duche, engole os cereais e vai à bolina no seu carro que “pelo menos é seguro” e que “já não é a primeira pessoa que me diz, e até já li num livro: tem mais 28 cavalos do que diz o livro - sabes como é que é! Questões fiscais”.
E vai asinha porque não pode chegar atrasado ao seu novo emprego de escritor. O patrão é severo. Tem prazos a cumprir. Agora é um romance. Uma história de tragédia. Dois irmãos que se apaixonam um pelo outro e são obrigados a terminar a relação quando descobrem que, afinal, não são irmãos. Depois chega a hora de almoço e à tarde tem de se embrenhar numa comédia.
Há que arranjar um herói. Pode ser o terceiro irmão dos atrás avindos - e que hão-de deixar de o ser. Que nome lhe havemos de dar? Passa este escriba pelas mesmas agruras dos pais que lhe escolheram o nome, assim como “uma espécie de pai sem o ser”. Martim. Pronto. Pelo menos aqui não tenho quem discorde. Martim será e pouco me importa que lhe chamem Martins. Afinal as crianças são cruéis e os adultos são medíocres. Quase todos. Não podem ser todos. O próprio conceito e o simples facto de existir, como tal o impõe. Se o oposto da mediocridade, qualquer que ele seja, como de resto tudo o que é ou não é, não existisse, ou não fosse reconhecido, a própria mediocridade não existiria.
Mas já chega de conversa fiada. Vamos às coisas sérias.
Falava-vos do nosso herói! Lindo! Bela tirada: “o nosso herói”. Livro que o queira ser, deste escritor de empreitada (que não sou eu, atenção, não se esqueçam da promessa), tem de ter um princípio, um meio e um fim e, mais que tudo, tem de ter um narrador - aqui posso ser eu - que possa dizer coisas como: “o nosso herói”.
Martim. Irmão do Fulano e da Beltrana - assumi o “Beltrana”. Irmã borralheira da Fulana, a preferida, e da Sicrana, irmã do meio a quem pouco falta. Não é a sério, não se esqueçam, porque irmãos são mesmo só três - recapitulando, Martim, Fulano e Beltrana. Nesta história, sempre que não se quiser nomear alguém, Beltrana será. E assim no feminino, que fica giro. E o raio do corrector ortográfico automático quer à força mudar-lhe o género. Pois que aguente. Não é Beltrano. Nesta estória não há paneleirices, se o outro é fulano, esta tem de ser Beltrana. Bem bonda o incesto que afinal não era.
O Martim, como não pode deixar de ser, é aprendiz de feiticeiro. Genericamente: bruxo - como se intitula. Num mundo de medíocres ninguém quer ser aprendiz de nada. Vamos todos fazer de conta. Fazer de conta que somos felizes. Fazer de conta que somos experimentados. Fazer de conta que temos dinheiro. Fazer de conta que não são os nossos papás que nos sustentam. Fazer de conta que nos esfalfamos a trabalhar. Sábados, Domingos e feriados. E dizer mal do vizinho que é um calão e não trabalha nos dias de descanso - deve-lhe vir da droga. Mesmo que estejamos conscientes, e alguns não fogem a esse estado, o que só lhes deve aumentar a agrura, mesmo que estejamos conscientes que não fazemos a ponta de um corno, que é só para inglês ver e, pior que tudo, que somos, na maior parte das vezes, o nosso próprio inglês. O que interessa é que o nosso vulto apareça na fotografia, que os movimentos mecânicos do trabalho se possam vislumbrar. Mesmo que o produto de toda essa presença no local da ilusória faina não passe dum enorme flato, dado bem alto e ao vento para que ninguém possa ouvir nem cheirar.
Mesmo assim. Como num enorme auto de fé de bruxas vaidosas. E um bruxo não dorme, um bruxo não come, um bruxo não bebe, um bruxo não fode. Pois bem, este aprendiz de feiticeiro faz isso tudo e mais uma botas que sejam precisas para algum pobre ucraniano que por ai ande de pata ao léu.
E lá vai então o Martim para o escritório. Chegou. As estórias misturam-se, a do criador e da criatura. Está quase a tocar o alarme das 10 para as 10. Ele espera, pacientemente. Escrever. Tá bem, tá. Escreve tu que tens bom vagar. Eu tenho muito com que me entreter - afinal, sou o vosso herói, o protagonista desta história. Embora não me desagrade de todo a ideia de tão tonta corrente literária, não gabo a sorte de quem a quiser aproveitar. Demasiado trabalhoso e, tecnicamente, não passa de uma bela dor de cabeça. Ah, e não vende.
Tocou o alarme, toca a escrever.
“Era uma vez um gato maltês tocava piano e falava francês.”

Elizabeth não é um filme. Parece mais uma espécie de teledisco épico - banda sonora à medida; guarda-roupa sumptuoso; cenários gigantones. A História é sacrificada ao que apeteceu: Isabel é uma simpatia e derrama boa disposição (um filme de Isabel I com pouco mais que uma cabecinha degolada não é Isabel que se apresente); Filipe II de Espanha é reduzido a um fanático pateta; Mary Queen of Scotts é apresentada como uma mulher desinteressante e azeda, aprisionada num castelo escocês, quando ,ao contrário, esteve prisioneira em solo inglês; Sir Francis Drake é espoliado dos louros na vitória sobre a Grande Armada pelo corsário Raleigh, and so on… Depois do Henrique VIII recentemente retratado na série The Tudors, vamos ficando habituados ao rigor dos argumentos nas filmagens pop.
Entretanto, Lizabete por Lizabete…
Gosto de: biografias, memórias, dicionários, Quim, igrejas, uma dúzia de amigos, vinho tinto, aguardente velha da Lourinhã, Nelson, caldeirada, comezainas, família, ser fraco com os filhos, Luisão, ser fraco com os amigos, António Costa, pataniscas de bacalhau, afectos, Espanha, revistas de decoração, comícios, David Luís, comezainas, livros de viagens, conversar, sms, Leo, e-mail, Elis Regina, blogues, Bruxelas, lampreia, Amesterdão, caffé shops, Petit, Mosteiro de Alcobaça, capela da Madre de Deus, arroz de tordos, Bynia, Óbidos, documentários, imagens do Muro de Berlim, Katsouranis, ter gente em casa, algodão, ovas, monovolumes, lareiras, Europa, jantaradas, Di Maria, hóteis, Guimarães, peixe-galo, Cristian Rodrigues, charutos, cinema, Ribeira do Porto, mulheres bonitas, café, cigarros, Cardozo, noitadas, multidões, centralismo, filhos, causas públicas, diversidade, Nuno Gomes, açorda, Manjar do Marquês, gravatas de seda e da monumental Catedral da Luz.
Não gosto de: puré de batata, Anderson Polga, sopa de legumes, viajar, Paulo Sousa, fibras sintéticas, comércio tradicional, fundamentalistas, Paulo Bento, estar distante dos amigos, urbanizações, centros comerciais, romances, ruído, casamentos, grupos de pressão, poemas declamados, notícias sobre se há portugueses ou não em catástrofes naturais ou desastres aéreos por esse mundo fora, consensos, independentes, Helena Roseta, sites, sociedade civil, não saber dos amigos, justiça popular, discursos laudatórios, Francisco José Viegas, comemorações, Liedson, fóruns da tsf, praia, Algarve, pessoas palavrosas, Ana Drago, taxistas, identidade nacional, televisão, aviões, máquinas com muitos botões, posts com muitos links, regionalização, conduzir, Luís Patrão, Laurentino Dias, ballet, arte contemporânea, pessoas sem carácter, cobardes e forretas.
é a minha mais recente e fascinante descoberta. No sábado passado, em Peniche, numa daquelas mercearias antigas, vi-o pela primeira vez. Envolvido numa moira escura e de forte odor a sangue, ali estava o lombudo escombrida à minha espera. No próximo domingo vou, por isso, fazer a minha primeira estupeta. E ainda os hei-de convencer a provar e a gostar de estupeta. No essencial, transformar dois copos de leite em dois homens. É para isso que aqui estou, foi essa a missão que deram.
Não que o template estivesse pior… aliás, sempre esteve muito bom! nem cheguei a entender que existissem queixumes…
Neste último ano tudo parecia correr mal a Sócrates. A doutrina, a governação, o power point. Com a chegada de Menezes essa tendência parecia agravar-se ainda mais. Sem a nevrose e a experiência de Jerónimo, Menezes, ainda assim, prometia ir a tudo o que mexesse. Tanto ia à cantina onde caísse o tecto junto das criancinhas, como ia à vigília pela máquina vendida que tirava a jorna para as couves do natal. Depressa se esqueceu disso. Depressa quis ter pose de Estado. Passou a falar baixinho (diminuindo ainda mais a sua atarracada figura), faz-se fotografar ao lado de Pinto Balsemão e propõe ao governo pactos inócuos e entendimentos pífios. Em quinze dias, Menezes estiolou. Santana, o pateta destes últimos dias, é apenas a confirmação disso.
Segundo afirmou, numa frase aspirante a belo efeito:
“Convém lembrar ao senhor primeiro-ministro que depois de Austerlitz há sempre um Waterloo. O engenheiro Sócrates há-de ter aqui, no Parlamento, o seu Waterloo, na altura própria“
Austerlitz - 1805
Waterloo - 1815